Wednesday, 15 April 2009

Descansa em paz Jorge









O que parecia um fim-de-semana de férias para Jorge Vasconcelos acabou em tragédia quando no passado sábado, este docente universitário de 36 anos foi vítima de um AVC enquanto estava em São Jorge. A demora na sua evacuação terá sido fatal segundo familiares e amigos que apresentou queixa no Ministério Público. A Secretaria Regional da Saúde determinou a instauração de um processo de inquérito para apurar os factos e eventuais responsabilidades ocorridos neste caso.
Segundo explicou ao nosso jornal fonte familiar, tudo terá acontecido na manhã de sábado, dia 11 de Abril, quando Jorge Vasconcelos se terá sentido mal, sendo conduzido de imediato ao Centro de Saúde de Velas.
Da avaliação feita pelos médicos daquela unidade de saúde concluiu-se que se tratavam de sintomas claros de uma eventual lesão cerebral e por não disporem de meios para atender um caso desta natureza, os clínicos contactaram de imediato o neurocirurgião de serviço do Hospital do Divino Espírito Santo.
Segundo os familiares de Jorge Vasconcelos, o mesmo terá recusado receber a evacuação deste doente, remetendo a situação para o Hospital do Santo Espírito, em Angra do Heroísmo.
“Ele ao chegar ao hospital de Ponta Delgada automaticamente teria todos os meios pois não se sabia se era a nível de neurocirurgia ou de neurologia”, disse, acrescentando que “só se sabia que era a nível cerebral e em Ponta Delgada teria todos os meios ao dispor para o diagnóstico”.
Como refere a mesma fonte familiar, é do conhecimento público que o Hospital do Santo Espírito não dispõe de meios para uma avaliação correcta destes casos, em particular o serviço de TAC, um meio de diagnóstico urgente em casos destes mas que não se encontra disponível naquela unidade de saúde, pelo que Jorge Vasconcelos teve de ser conduzido à Clínica da Praia da Vitória, uma clínica privada, mas quatro horas após ter dado entrada nos serviços do Hospital do Santo Espírito, uma situação que para a família é “inaceitável num caso desta gravidade, onde cada minuto conta e pode fazer a diferença no propósito de salvar uma vida humana”.
A mesma fonte disse à nossa reportagem que o neurocirurgião que havia sido contactado em primeira instância acedeu em receber o doente, cerca da meia-noite, após “ter sido feita uma grande pressão, por meio dos conhecimentos pessoais de amigos e familiares”, mas a decisão revelou-se tardia para Jorge Vasconcelos que acabou por falecer no passado domingo de Páscoa, 12 de Abril.
A família não se conforma com a situação e refere também que aquando ida de Jorge Vasconcelos para o Hospital do Santo Espírito, o mesmo permaneceu naquela unidade hospitalar sem ter dado entrada na Unidade de Cuidados Intensivos, tendo apenas lá entrado a fim de efectuar a preparação para a evacuação para S. Miguel.
Segundo foi referido ao nosso jornal, trata-se de uma situação que põe em causa o próprio serviço regional de saúde que “continua, principalmente nas ilhas de menor dimensão, a funcionar muito aquém das expectativas e necessidades dos açorianos que devem ter acesso a estes cuidados e a estes meios de diagnósticos”.
A concluir a mesma fonte familiar disse que esta é uma situação que não pode voltar a acontecer dado que existem vidas humanas que dependem dos responsáveis por estas urgências “que, com o dinheiro de todos nós, foram dotados com meios que permitem salvar vidas” e que neste caso provocou a perda de um pai de família e uma pessoa que “sempre primou pelo rigor, entrega, honestidade e possuidor de uma imensa vontade e alegria de viver”.
Contactado o Hospital do Divino Espírito Santo, a adjunta da direcção clínica, Inês Leite, declinou quaisquer responsabilidades desta unidade de saúde em relação a este caso referindo que a mesma nunca recusou a transferência do doente e que a mesma é feita através do centro de evacuações que tem normas próprias para a evacuação dos doentes entre os diferentes hospitais. A mesma responsável disse ainda que aquando do primeiro contacto não havia um diagnóstico do doente, dado a impossibilidade do Centro de Saúde de Velas em fazê-lo pelo que não se poderia avançar com a transferência de um doente que nunca tinha tido uma patologia neurocirúrgica, pelo que nunca poderia ser um neurocirurgião a recusar ou a aceitar a sua evacuação até porque só após o TAC é que se diagnosticou o quadro neurológico. “Aliás, nem chegou a haver pedido do Centro de Saúde de Velas para transferir o doente, mas sim um pedido de opinião perante o quadro clínico”, disse, acrescentando que se tratou apenas de uma situação de aconselhamento entre colegas.
A mesma adjunta da direcção clínica ressalvou ainda que em relação ao doente houve um contacto constante entre o neurologista de serviço e as demais unidades de saúde envolvidas e que a evacuação foi realizada pela possibilidade de haver uma complicação neurocirúrgica.
Entretanto a Secretaria Regional da Saúde emitiu ontem um breve comunicado onde explica que foi determinada a instauração de um processo de inquérito para apurar os factos e eventuais responsabilidades ocorridos neste caso. A mesma nota adianta ainda que o processo incide sobre a Unidade de Saúde de S. Jorge, o Hospital do Santo Espírito de Angra do Heroísmo e o Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada.

0 comments: