Wednesday, 10 September 2008

Basta-me!

Basta-me!



Pudera eu despir-me aqui perante vós
que mesmo nua continuaria adornada
desta minha condição humana:
pedra e força bruta.
porque as faces mesmo lisas não deixam de ser rudes,
nem as arestas por mais perfeitas deixam de ser ríspidas.

Pudera eu vir aqui fazer-vos
a critica da convicção pura
e falar-vos de tudo quanto sinto mas não digo.

Pudera eu vir aqui expor-vos os argumentos
das razões que não sei se tenho
e de todas as opiniões que pari desde que me entendo.

Pudera eu ser um Ser sempre justo
que as outras imperfeições carregá-las-ia de bom grado
no saco da minha consciência.

Pudera eu dizer tudo isto e ser entendida,
e não estaria aqui convosco.

Mas quis a fortuna que o Grande Arquitecto
permitisse que, no prefácio da narração dos tempos,
os homens nascessem brotando do chão.

Quis Ele que na Idade do Ouro o Sopro Criador
se confundisse com as criaturas,
que o Homem fosse o guardião das cores,
o zelador de todos os ocres e pigmentos.

Quis Ele dar ao Homem a sede autentica mais a divina figura.
também a ousadia, fundamento da Liberdade.

Quis ainda a sorte que Prometeu nos desse o lume divino,
e que a caixa de Pandora, senhora de todos os dons,
se abrisse entornando contratempos.

Desde então as ideias são como alaridos e esgrimas
e as frases soam a desconfianças bastardas.
Rebuscamos no campanário das vozes e das prosas de Babel,
a Palavra que um dia dará forma à doutrina do entendimento humano.
Catamos na multidão dos vocabulários,
nos mistérios dos catecismos,
no frágil talento dos nossos rudes critérios:
o Sopro Divino, Grande Alento, brasas de Luz a partir do nada;
a Harmonia das Esferas, caroço das perfeições possíveis;
os pedaços, na miragem de chegar ao Todo colando as partes.

Dói olhar para um homem, vê-lo só a ele, e nem sequer todo...
Dói procurar nas Borras da Fundição, olhos que vejam como os nossos...
Dói encostar o ouvido ao búzio e não adivinhar o sabor do sal...
Dói tanto...

Mas no dia em que o céu se partir,
as tábuas da mecânica do mundo hão de peregrinar.
nesse dia estarei convosco, para guardá-las.

Basta-me!

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